Gagueira (Disfemia)
[ Fala ]30.05.2009
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por Flávia Paiva | Rio de Janeiro, RJ
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Flávia Paiva
Disfemia é o nome dado à disfluência da fala, que altera seu ritmo e a expressão verbal, ou seja, é a gagueira propriamente dita.
Segundo Van Riper (1982), "quando uma pessoa gagueja em uma palavra, há uma ruptura temporal da programação simultânea e sucessiva dos movimentos musculares necessários à produção dos sons integrados dessa palavra, ou para emitir uma das sílabas de forma apropriada, ou para efetuar a ligação precisa entre os sons e as sílabas que constituem seu padrão motor. Se ignorarmos por enquanto todo o complexo revestimento de reações a essa experiência, encontraremos a essência do distúrbio nessa fragmentação e ruptura da seqüência motora da palavra. A integridade de uma palavra requer grande precisão no "tempo" (timing) de seus componentes. Se, por qualquer razão, esse "tempo" é mal regulado, a palavra produzida é distorcida temporalmente e, quando isso acontece, o falante manifesta um comportamento essencialmente gago."
Perante tantas definições de inúmeros autores, todos concordam entre si em um fato: a essência da gagueira reside na quebra da fluência. As sílabas do gago parecem estar presas; elas são finalizadas bruscamente; a respiração é interrompida. O gago muitas vezes realiza diversas posturas silenciosas da boca antes de falar a palavra, ou ele pode assumir uma posição fixa e lutar com a mesma em silêncio antes de soltar o que quer dizer.
Também existem alguns gagos que apresentam pouco esforço explícito. Eles evitam e se esquivam de suas palavras e situações de fala temidas. Possuem uma série de estratégias para esconder a sua dificuldade, podendo substituir palavras temidas por outras não-temidas. Podem parar de falar e fingir que estão pensando, refletindo. Podem utilizar algumas interjeições, como: "ah", "uhm" ou "bem", para adiar o máximo possível seu sofrimento esperado.
Segundo Casanova (1997), é elevada a freqüência de antecedentes familiares de gagueira, estando em torno de 75% dos casos.
Nota-se um maior número de pessoas do sexo masculino com gagueira em relação às do sexo feminino. A explicação mais provável é a de que os homens são simplesmente mais vulneráveis a todos os tipos de distúrbios que as mulheres (Silverman, 1986).
Com relação à idade, a gagueira geralmente começa durante os anos da pré-escola, ou seja, é um distúrbio principalmente da infância.
Tipos de Bloqueios:
1- Bloqueios tônicos:
Caracteriza-se pela fala entrecortada que surge ao iniciar a fala. Há presença de espasmos musculares, provocando um bloqueio na fala. Os espasmos atingem grupos musculares relacionados à fonação. Este tipo de bloqueio impede que os sons se sequenciem, fazendo com que o indivíduo realize um grande esforço, provocando a saída de uma fala explosiva e violenta.
2- Bloqueios clônicos:
Caracteriza-se pela repetição de fonemas, sílabas ou palavras, que acontece durante toda a fala do indivíduo. É produzida por breves e rápidas contrações bucais.
3- Bloqueios clônicos e tônicos:
Caracteriza-se pela mistura de sintomas dos dois tipos de bloqueios citados anteriormente.
Tipos de Gagueira (segundo Borel-Maisonny, 1976):
- Gagueira familiar ou hereditária: É aquela em que existe numa mesma família pessoas gagas, de geração para geração. É o fato que leva em consideração a transmissão da carga genética.
- Gagueira afásica: É adquirida em consequência de uma lesão cerebral. Uma das maiores ocorrências deste tipo de gagueira ocorre na recuperação dos afásicos onde há uma diminuição na fluência. Conforme vão emitindo mais palavras, os bloqueios vão se tornando presentes.
- Gagueira dos bilíngues: Ocorre em crianças com grau linguoespeculativo baixo, que convivam em um ambiente onde as pessoas sejam bilíngues.
- Gagueira tônica do atraso de linguagem: Ocorre quando a criança sai do estágio de atraso na linguagem e passa a apresentar uma gagueira com presença de bloqueios tônicos.
- Gagueira esquizóide: É a que ocorre quando o indivíduo apresenta um quadro pré-psicótico. Esta gagueira surge junto com a psicose.
- Gagueira oligofrênica: Devido à insuficiência linguoespeculativa causada pela oligofrenia, surge este tipo de gagueira.
- Gagueira mista: Ocorre quando um ou mais tipos de gagueira num mesmo indivíduo.
Outros tipos de gagueira:
Outros autores classificam a gagueira como: fisiológica, primária e secundária.
- Gagueira fisiológica: É um processo que faz parte do período de desenvolvimento da linguagem da criança, que ocorre em torno dos dois anos, podendo ir até aproximadamente quatro ou cinco anos. os bloqueios ocorrem quase sempre na sílaba inicial, tendendo a gaguejar no início da frase.
- Gagueira primária: É caracterizada por ausência ou pouco esforço nos bloqueios, acontecendo mais bloqueios clônicos, hesitações e repetições devido ao baixo grau de intensidade deste tipo de gagueira.
- Gagueira secundária: Neste tipo de gagueira já irá existir esforço nos bloqueios, ocorrendo espasmos musculares. Há conscientização da gagueira por parte do indivíduo, gerando problemas psico-afetivos, que fazem com que aumente a gravidade dos sintomas.
Pode ocorrer um tipo de gagueira em que o indivíduo apresenta um certo grau de "stress". Este tipo de gagueira deve ser encaminhado à terapia psicológica. Esta gagueira só ocorre em adultos e esporadicamente, após um fato estressante.
A gagueira também pode ser observada em pacientes com síndromes extra-piramidais, como por exemplo a Síndrome de Parkinson.
O papel do medo:
O medo de pronunciar as palavras é um fator altamente perigoso para o indivíduo gago. Quando uma criança pequena, gaga, começa a ter medo de falar, sabe-se que ela ocorre o sério risco de piorar, pois o medo pressupõe a antecipação de uma sensação desagradável, e grande parte dessas sensações vem de duas fontes: da experiência de ser punido, rejeitado, caçoado por seus ouvintes, de ser alvo de compaixão, ou da experiência de ser momentaneamente incapaz de se comunicar, de sentir sua fala bloqueada, de ser incapaz de inibir a repetição ou prolongamento compulsivo de um som ou sílaba.
Os primeiros medos de pronunciar as palavras surgem decorrentes de duas fontes principais (Van Riper & Emerick, 1997):
"(1) de palavras que são lembradas devido à grande frustração ou punições vividas experimentadas quando as pronunciava e
(2) de palavras que, devido a seu uso freqüente sob estresse, acumulam em si mais lembranças da gagueira."
Esses tipos de medos corriqueiros aumentam rapidamente, e invadem constantemente outras áreas da vida mental. O medo começa pelas palavras e pode disseminar, tomando diversos rumos. O mesmo tipo de processo ocorre quando o indivíduo tem medo de uma situação. Estes medos são mais vagos, mais generalizados, concentrados nas atitudes do ouvinte e do gago do que no comportamento. Existem gagos que até desmaiam e caem no chão em antecipação à situação da fala.
A eliminação total da gagueira não pode ser vista como principal objetivo a ser alcançado, principalmente quanto mais velho for o paciente. O objetivo principal será tentar eliminar ao máximo os sintomas associados à gagueira, e, no caso da criança pequena, tentar evitar que a gagueira se complique.
Segundo Casanova (1997), existem algumas normas de conduta que devem substituir as habituais dos disfêmicos:
1- Falar com calma, sem precipitação
2- Colocar em prática a auto-observação da fala, quando for fluente para captar os mecanismos da fluência espontânea
3- Não evitar a gagueira sistematicamente, não fugindo de situações verbais, falando sempre que necessário, enfrentando o risco de gaguejar, aprendendo a perder a sensibilidade em relação ao problema
4- Não desviar o olhar do interlocutor
5- Eliminar aos poucos os movimentos parasitas, que são desnecessários para uma linguagem fluente
6- Utilizar gestos harmônicos que acompanhem a fala, facilitando a fluência
7- Observar e definir o que acontece ao gaguejar. Não ficar com uma impressão emocional desagradável, sem tratar de explicar e diferenciar o componente emocional, o motor e o verbal para conhecer melhor o distúrbio e poder tratá-lo em seus diferentes níveis
8- Eliminar o uso de sinônimos, dizendo palavras que se queira dizer não fugindo delas, mesmo que pareçam difíceis
9- Falar com mais entonação e menos esforço
10- Falar o máximo possível, não economizando na expressão verbal
Como o mesmo autor relata (Casanova, 1997), o tratamento da disfemia inclui os seguintes campos de ação:
1- Reduzir a gagueira empregando técnicas auxiliares
2- Descondicionar a fala dos fatores externos que geralmente provocam a gagueira e da resposta à ansiedade, que constitui outro importante estímulo condicionado
3- Modificar as atitudes e a conduta verbal do disfêmico
4- Manter e ampliar a fala fluente em situações verbais cada vez mais comprometidas
Seja qual for a conduta adotada para o tratamento da Disfemia, esta deverá ser realizada da forma mais humanizada possível, o paciente disfêmico apresenta uma série de sintomas que em conjunto nos mostram uma situação, um comportamento que foi aprendido, e que precisa muito de nós, Fonoaudiólogos, para modificar este comportamento.
bibliografia
RIPER, Charles V.; EMERICK, Lon. "Correção da Linguagem - Uma Introdução à Patologia da Fala e à Audiologia". Artes Médicas, Porto Alegre, 1997.
CUPELLO, Regina C. M.. "1,000 Perguntas em Fonoaudiologia". Revinter, 1994.
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